Nelson Rodrigues não via o futebol só como um esporte. Estava mais para um drama que retratava a realidade do Brasil.  Torcedor fanático do Fluminense, o autor Nelson Rodrigues não via o futebol só como um esporte. Estava mais para um drama que retratava a realidade do Brasil.  Torcedor fanático do Fluminense, o autor

O futebol segundo Nelson Rodrigues (agora para o mundo)

2026/01/18 11:10

Nelson Rodrigues não via o futebol só como um esporte. Estava mais para um drama que retratava a realidade do Brasil. 

Torcedor fanático do Fluminense, o autor transformava os 90 minutos de uma partida em uma verdadeira epopeia recheada de heróis, vilões e paixão. 

Foi ele, por exemplo, que coroou Pelé como “o rei do futebol” em 1958. Detalhe: Edson Arantes do Nascimento ainda era um garoto de 17 anos, que sequer havia vencido sua primeira Copa do Mundo. 

Nelson deu a alcunha numa crônica, depois de Pelé fazer quatro gols no América-RJ no extinto Torneio Rio-São Paulo. 

“O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: a de se sentir rei, da cabeça aos pés,” escreveu. 

Agora, a família do escritor quer levar textos como esse – que transformaram futebol em literatura – aos quatro cantos do mundo. 

Aproveitando que a Copa de 2026 será disputada simultaneamente em três países (Estados Unidos, Canadá e México), os Rodrigues estão preparando um portal trilíngue – inglês, espanhol e português – inteiramente dedicado a suas milhares de crônicas esportivas.

Organizado pela filha de Nelson, Sonia, o Bardo do Futebol Brasileiro será lançado com curadoria rigorosa e tradução profissional para os três idiomas.

(O termo bardo remete aos poetas da Antiguidade que eram encarregados de narrar a história e os feitos de um povo de maneira épica.)

A proposta não se limita ao texto. O Bardo do Futebol Brasileiro inclui uma biblioteca digital, vídeos curtos legendados, conteúdos multimídia e uma presença multiplataforma.

Um dos eixos centrais da plataforma é uma AI conversacional, treinada exclusivamente para responder perguntas sobre Nelson Rodrigues e sua obra.

Mas Sonia deixa claro: não será uma AI criada para “falar com Nelson Rodrigues”. 

“Não é falsificar o Nelson: é para responder perguntas sobre a obra,” disse a filha do gigante.

A família agora está em busca de investidores para colocar o projeto em pé – e de uma empresa-âncora para viabilizar o lançamento e destravar mecanismos de incentivo. 

O orçamento estimado é de R$ 560 mil, cobrindo oito meses de produção e doze meses de manutenção. Segundo a família, a CBF já acenou com um apoio institucional.

Embora o futebol seja o ponto de partida, o Bardo é visto como um projeto-piloto com uma ambição maior: usar o futebol como linguagem universal para abrir caminho para a internacionalização mais ampla da obra.

Segundo Sonia, peças de Nelson já foram traduzidas e encenadas na França, Inglaterra e Alemanha, com editoras estrangeiras publicando parte do repertório teatral; A Falecida, por exemplo, já ganhou versão em francês. 

Mas a família ainda enxerga um imenso potencial a ser destravado. As crônicas de futebol, por exemplo, permanecem praticamente desconhecidas fora do Brasil. 

“O futebol é uma parte, não é a obra inteira,” disse Sonia. “Ele funciona como porta de entrada. A ideia é usar isso para internacionalizar o Nelson como um todo – o teatro, os textos, o pensamento.”

Além da própria Sonia, o esforço envolve a empresa Engraçadinha, criada em 2022 e que reúne quase todos os herdeiros de Nelson Rodrigues.  A Engraçadinha concentra cerca de 80% dos direitos autorais do autor de clássicos como Toda Nudez Será Castigada e A Vida Como Ela É

A empresa funciona como o centro de licenciamento e gestão da obra: teatro, cinema, televisão, streaming, livros e projetos especiais passam por ela. 

Inicialmente, a operação era conduzida por Sônia e sua irmã Maria Lucia; após o falecimento da irmã, Sônia assumiu a função de sócia-gerente. 

Segundo ela, a família tem uma postura muito seletiva: não libera os direitos para qualquer projeto, independentemente do dinheiro.

“A gente discute projeto por projeto,” disse Sonia. “Não estamos vendendo a obra na bacia das almas.” 

Para a família, Nelson Rodrigues deve ser tratado como um clássico. “Ele é o nosso Shakespeare,” disse sua filha.

O próprio autor dizia acreditar que sua obra atravessaria os séculos – como as tragédias de Eurípides, escritas no século V antes de Cristo e encenadas até hoje.

Sonia disse que o controle da família sobre a obra é para ter a certeza de que o que será publicado está à altura do que Nelson Rodrigues produziu durante boa parte dos seus 68 anos de vida.

Ou seja, é praticamente uma ode contra o “complexo de vira-lata” – outro termo criado pelo nosso bardo que entrou no vernáculo.

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