Raul Jungmann, que ao longo de quase cinco décadas na vida pública construiu pontes e teve amplo trânsito nos mais variados círculos – dos gabinetes do CongressRaul Jungmann, que ao longo de quase cinco décadas na vida pública construiu pontes e teve amplo trânsito nos mais variados círculos – dos gabinetes do Congress

MEMÓRIA. Raul Jungmann, que apostou no diálogo e se tornou um consenso

2026/01/20 05:42

Raul Jungmann, que ao longo de quase cinco décadas na vida pública construiu pontes e teve amplo trânsito nos mais variados círculos – dos gabinetes do Congresso aos ministérios, passando pelos tribunais e quarteis – morreu no domingo, aos 73 anos.

Especialista em assumir cargos em meio a crises, Jungmann foi deputado por três legislaturas e titular de ministérios importantes como os da Reforma Agrária e da Defesa, além de ter sido o primeiro e único ocupante do Ministério Extraordinário da Segurança Pública.

Integrante dos governos Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer, Jungmann foi “um brasileiro que soube servir ao país,” Temer disse numa nota de pêsames.

Ao tomar posse no Ministério Extraordinário da Segurança Pública, em 2018, Jungmann chegava a um dos pontos mais altos de sua vida pública. Até então atuando como ministro da Defesa, ele assumiu a nova pasta com a missão de coordenar ações de combate à violência e à criminalidade em parceria com os estados. 

Em seu discurso de posse, disse que estava “abrindo mão da vida política para se dedicar integralmente ao novo ministério.”

Raul Belens Jungmann Pinto nasceu em 3 abril de 1952 no Recife, filho de Ivanise Belens Moreira e do jornalista Sylvio Jungmann da Silva Pinto. Militante do PCB (o Partido Comunista Brasileiro) ainda quando este estava na clandestinidade, Jungmann filiou-se ao MDB em 1974.

Dois anos depois, ingressou no curso de Psicologia da Universidade Católica de Pernambuco, mas não concluiu o curso. No ano seguinte, assumiu a gerência de projetos do Centro de Desenvolvimento Empresarial do estado. 

Em 1985, com o fim da ditadura, o PCB voltou à legalidade. Jungmann desligou-se do PMDB e voltou à sigla comunista, permanecendo na legenda mesmo após a mudança de nome para PPS (Partido Popular Socialista) em 1992.

Em abril de 1990, ocupou seu primeiro cargo público de relevância, ao ser nomeado secretário de Planejamento pelo governador Carlos Wilson.

Encerrado o mandato, Jungmann transferiu-se para Brasília, onde, em 1993, passou a ser secretário-executivo da Secretaria de Planejamento, Orçamento e Coordenação da Presidência da República. Era o Governo Itamar Franco.

No ano seguinte, engajou-se na campanha de Fernando Henrique Cardoso, onde conheceu David Zylbersztajn, um engenheiro e genro do candidato que logo assumiria como secretário do governo Mario Covas, em São Paulo.

Raul e David estabeleceram uma amizade que se manteve para sempre. “Foi um grande amigo, uma pessoa bem-humorada, de ótimo convívio”, lembra Zylbersztajn. “Apesar de ligado ao Partidão, ele soube evoluir politicamente, libertando-se de velhos dogmas e assumindo posições avançadas e contemporâneas”.

Com FHC eleito, Jungmann tornou-se diretor-executivo do Instituto de Estudos da Cidadania (Idec), de onde saiu para assumir a presidência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

A trajetória de Jungmann mudaria completamente no segundo ano do Governo FHC. Em abril de 1996, uma ação da Polícia Militar do Estado do Pará terminou em tragédia. O conflito já se desenhava uma semana antes, quando mais de 4 mil sem-terra e manifestantes do MST começaram uma marcha de quase 900 quilômetros até Belém em protesto contra a demora da desapropriação de terras. 

A Polícia foi encarregada de afastá-los do local com a justificativa de que eles obstruíam a BR-155. O governador Almir Gabriel, do PSDB, e o secretário de Segurança, Paulo Sette Câmara, autorizaram o uso “da força necessária, inclusive atirar”. O confronto resultou na morte de 19 sem-terra e agravou uma crise dentro do governo. 

Fernando Henrique agiu rápido e determinou que tropas do Exército fossem deslocadas para a região para conter a escalada de violência. Mas a decisão mais abrangente ocorreu uma semana depois do massacre, quando o governo confirmou a criação do Gabinete Extraordinário do Ministro da Política Fundiária. 

Jungmann assumiu a pasta em um dos períodos de maior tensão no campo. “Foi um momento trágico,” lembrou ele 27 anos depois. “A crise envolvendo as questões agrárias vinha se agravando e culminou nesse massacre. Foi o momento que o governo viveu o seu pior período e que mais foi criticado.”

As tarefas de Jungmann eram imensas e urgentes. Um de seus primeiros atos foi a criação de um conselho formado por trabalhadores rurais, empresários do agro, Igreja e outras entidades com a função de conduzir uma discussão sobre a reforma agrária.

Jungmann defendia que a intenção do governo era promover um amplo diálogo para reduzir as tensões no campo e evitar novos confrontos. O ministro também anunciou que iria promover reformulações no Incra, que não funcionava com a velocidade adequada, e que se reuniria com dirigentes do MST. “O momento era de virada. Era preciso promover a reforma, sob pena de regredir,” avaliou Jugmann anos depois.

Apesar dos esforços do Ministério, o clima tenso permaneceu, com mais ocupações e invasões promovidas pelos sem-terra. “Naquele período, o MST atingiu o auge de suas ações,” recordou Jungmann. “O MST agia nem tanto pelas posições em defesa da reforma agrária, mas como um braço do PT interessado em atacar Fernando Henrique e em fazer o governo sangrar até ficar próximo das eleições.”

Para complicar a situação, Jungmann lembrou um acontecimento paralelo que teve grande influência e repercussão: a Rede Globo colocou no ar O Rei do Gado, de Benedito Ruy Barbosa, com Antônio Fagundes e Patrícia Pillar no elenco.

A novela não apenas retomava as discussões sobre a reforma agrária como exaltava a vida dos sem-terra. “Com essa abordagem simpática, tratando os personagens de maneira generosa e romantizando os conflitos, a emissora conseguiu despertar muitas camadas de militantes que estavam adormecidas, inclusive os que viviam nos centros urbanos,” constatou Jungmann.

Após os oito anos de governo FHC, Jungmann foi eleito deputado federal pelo PMDB de Pernambuco em 2002.

No ano seguinte, deixou o PMDB e voltou ao PPS, dizendo que o partido era “identificado com as causas populares”. Reeleito em 2006, Jungmann apoiou a candidatura de Geraldo Alckmin à presidência. 

O deputado Jungmann fez duras críticas ao MST  em janeiro de 2009, afirmando que se tratava de um movimento “sem rumo” e “chapa branca”, e acusando seus membros de terem sido cooptados e comprados pelo Governo Lula.

Em outubro de 2010, candidatou-se ao Senado por Pernambuco e apoiou José Serra contra Dilma Rousseff.

Sem mandato, em 2011 Jungmann foi nomeado conselheiro da Companhia de Engenharia do Tráfego (CET) de São Paulo pelo prefeito Gilberto Kassab. No mesmo período, foi indicado pela CEMIG ao conselho da Light. 

Voltou a disputar um mandato em 2012, quando e elegeu vereador pelo Recife, pelo PPS. Dois anos depois ficou entre os suplentes na Câmara, sendo chamado a exercer o mandato entre 2015 e 2016. 

Na oposição ao governo Dilma, Jungmann aproximou-se de Temer e defendeu o impeachment da Presidente. Com a posse de Temer, tornou-se Ministro da Defesa.

Passado o primeiro ano no cargo, Temer o convocou para uma tarefa ainda mais complexa: a nova pasta da Segurança Pública, onde ele seria o responsável por comandar a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, a Força Nacional e o Departamento Penitenciário Nacional, que deixaram de ser subordinados ao Ministério da Justiça.

Depois do Governo Temer, Jungmann permaneceu ativo em organizações da sociedade civil. Em 2019, passou a integrar o conselho consultivo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Em seguida, foi membro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), um think tank dedicado à política externa brasileira.

Em 2022, assumiu o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que representa as empresas do setor mineral, e permaneceu no cargo até a morte.

“Em toda sua trajetória, Raul Jungmann jamais transigiu com os valores básicos no exercício da atividade política e da cidadania,” disse Zylbersztajn. 

No ano passado, em um jantar promovido pelo Ibram em sua homenagem, era possível ver entre os convidados militares, parlamentares da oposição e da situação, empresários e ministros do STF.

“Isso mostra o alcance que a atuação política do Raul era capaz de atingir,” disse Zylbersztajn.

Raul Jungmann deixa a mulher, Nathalie Kuperman, e os filhos Bruno e Júlia.

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