O Bitcoin recuou para US$ 89.500 nesta sexta-feira, 24 de janeiro de 2026, consolidando uma sequência negativa que reflete a complexa dinâmica entre fatores macroeconômicos, tensões geopolíticas e fluxos de capital global. O maior ativo digital do mundo não conseguiu sustentar os níveis acima de US$ 97.000 atingidos no meio de janeiro, sinalizando cautela entre investidores institucionais.
Os fundos de investimento em Bitcoin registraram saídas líquidas de US$ 1,62 bilhão (aproximadamente R$ 8,57 bilhões) ao longo de quatro pregões consecutivos, uma das sequências negativas mais prolongadas dos últimos meses. Analistas apontam que hedge funds e “fast money” (investidores ágeis que representam 10-20% do mercado) estão reduzindo sua exposição em um ambiente de aversão ao risco.
O Ethereum também sofreu pressão, caindo 2,46% para cerca de US$ 2.898, alinhado à dinâmica macroeconômica mais ampla que afeta toda a classe de ativos de risco.
As tensões geopolíticas emergiram como fator crítico para o desempenho das criptomoedas em 2026. A disputa pela Groenlândia, com ameaças de tarifas comerciais do presidente Trump contra aliados europeus, elevou significativamente a instabilidade global e fragmentação comercial, conforme destacado no Relatório de Risco Global do Fórum Econômico Mundial apresentado em Davos.
Essas tensões reacenderam temores de uma guerra tarifária internacional, reduzindo o apetite por risco entre investidores globais. Wall Street fechou a semana sem direção única, com o S&P 500 abrindo em queda de 54 pontos, refletindo a cautela que permeia os mercados financeiros.
Mercados de previsão indicam baixa probabilidade de o Bitcoin recuperar o patamar de US$ 100.000 antes do final de janeiro. Segundo dados do Polymarket de 22 de janeiro, há apenas 6% de chance de BTC ultrapassar US$ 100.000 antes de 31 de janeiro, enquanto a plataforma Kalshi aponta 7% para o mesmo período e 65% antes de junho de 2026.
Essa consolidação prolongada reflete a falta de catalisadores positivos imediatos e a preferência de investidores por ativos tradicionais de segurança, como ouro, que avança rumo a US$ 23.000.
A política monetária do Federal Reserve permanece como variável crucial para o mercado de criptomoedas. Com inflação controlada—índice de preços ao consumidor (CPI) anual em 2,7%—há expectativas de uma postura menos restritiva do banco central americano. No entanto, a inflação permanece teimosamente acima da meta de 2% do Fed, criando tensão interna na instituição.
A sucessão de Jerome Powell em maio de 2026 também gera incerteza. Kevin Warsh lidera as apostas com 47% de chances de se tornar o próximo presidente do Fed, seguido por Rick Rieder (26%), Christopher Waller (12%) e Kevin Hassett (11%). A escolha do novo presidente pode impactar significativamente a trajetória das taxas de juros e, consequentemente, o desempenho das criptomoedas.
No contexto brasileiro, o Banco Central publicou em 23 de janeiro uma instrução normativa que detalha regras para empresas de criptoativos (PSAVs), com entrada em vigor em 2 de fevereiro de 2026. A norma reforça exigências técnicas de certificação independente para operação de serviços como compra, venda e custódia.
As principais exigências incluem certificação técnica obrigatória com auditoria independente para comprovar segregação de ativos, prova de reservas, governança, segurança cibernética e prevenção a fraudes. Essa regulação visa equilibrar inovação e proteção, sem proibir o setor, mas com fiscalização rigorosa.
Paralelamente, o Projeto de Lei 311/25 tramita na Câmara para garantir o direito de autocustódia, permitindo que cidadãos controlem diretamente seus criptoativos sem intermediários.
Nos Estados Unidos, a SEC e a CFTC avançam em harmonização de regras para ativos digitais, potencializando a entrada de investidores institucionais e a maturação do mercado. Um novo projeto de lei em aprovação estabelece regras claras para criptomoedas, ampliando o papel da CFTC e favorecendo o Bitcoin como ativo regulado.
Analistas identificam cinco tendências principais que podem decidir o desempenho das criptomoedas em 2026. A primeira é o Bitcoin se consolidando como uma alocação macro, sensível a estresses globais e comportando-se mais como ativo de risco com correlação aumentada com ações.
A volatilidade atual reflete essa dinâmica: Bitcoin apresenta alta sensibilidade a choques macroeconômicos, tornando-o uma “incógnita” em portfólios diversificados. Tensões geopolíticas, flutuações cambiais (como a desvalorização do iene) e decisões de política monetária continuam pressionando o mercado.
Investidores devem priorizar cautela, aguardando estabilização macroeconômica, decisões do Federal Reserve e possível reversão de fluxos em ETFs de Bitcoin. O mercado de criptomoedas em janeiro de 2026 reflete a complexidade da economia global atual, onde fatores técnicos, macroeconômicos e geopolíticos se entrelaçam de forma intrincada.
A consolidação do Bitcoin abaixo de US$ 90.000 pode representar uma oportunidade para investidores de longo prazo, mas o curto prazo permanece marcado por incerteza e volatilidade. A resolução das tensões geopolíticas, especialmente em relação à Groenlândia e às ameaças tarifárias, será fundamental para determinar a próxima direção do mercado de criptomoedas.
O recuo do Bitcoin para US$ 89.500 em 24 de janeiro de 2026 não é um evento isolado, mas sim reflexo de dinâmicas globais mais amplas. A combinação de aversão ao risco, tensões geopolíticas, incerteza sobre política monetária e fluxos de capital criou um ambiente desafiador para criptomoedas. Enquanto mercados de previsão indicam baixa probabilidade de recuperação rápida, o longo prazo permanece aberto a múltiplos cenários, dependendo de como os principais atores globais navegarem pelas tensões atuais.


