Medicina — Foto: Pexels
“A pressa é inimiga da perfeição”, quem nunca ouviu o ditado? Significa que fazer as coisas com calma, prestando atenção, resulta em melhor qualidade, enquanto o que é feito às pressas leva a erros, decisões precipitadas e trabalhos malfeitos. Pois é justamente isso que o movimento chamado de “slow living”, ou viver mais devagar, prega.
A origem do “slow living” vem da Itália, em 1986, depois que um grupo protestou contra a abertura de um Mcdonald 's na Piazza di Spagna, famosa praça no coração da capital, Roma. Os críticos condenavam a instalação de um “fast food” num dos locais mais tradicionais do país, onde a cultura está intimamente ligada à comida e aos hábitos criados em torno das refeições.
Depois que impediram a instalação do “fast food”, surgiu o contraponto “slow food”, que preza pela comida feita com mais dedicação e menos pressa. E foi aí que o cardiologista italiano Alberto Dolara percebeu que o mesmo ocorria com a medicina, a “fast medicine”.
As pessoas chegam em prontos-socorros com dor, são atendidas por triagens rápidas que não perguntam quem você é, ou o que está fazendo ali, mas medem sua pressão, vê se está com febre, se você tem algum tipo de alergia e já passam para a próxima etapa que consiste em consultas rápidas de cerca de seis minutos que geralmente geram uma receita médica cheia de remédios ou exames caros que, muitas vezes, não são necessários.
“Na prática clínica, a pressa é quase sempre desnecessária. A adoção de uma estratégia de Slow Medine pode ser mais gratificante em muitas situações. Tal abordagem permitiria aos profissionais de saúde e, em particular, aos médicos e enfermeiros ter tempo suficiente para avaliar com atenção os problemas pessoais, familiares e sociais do paciente, para reduzir a ansiedade enquanto se espera por procedimentos diagnósticos e terapias não urgentes, para avaliar cuidadosamente novas metodologias e tecnologias, para evitar altas hospitalares prematuras e, por fim, para oferecer um apoio emocional adequado aos pacientes terminais e às suas famílias”, escreveu Dolara no artigo em que o termo foi empregado pela primeira vez, publicado em 2002 no Italian Heart Journal.
A partir daí, um grupo de profissionais de saúde propunha a criação de um espaço onde outros profissionais da área e, sobretudo, os cidadãos, pudessem partilhar experiências e pensamentos sobre medicina.
No Brasil, uma série de palestras sobre o assunto, além de livros de médicos italianos e americanos publicados no país inspiraram o geriatra e clínico geral José Carlos Aquino de Campos Velho, o professor de cirurgia Dario Birolini e o clínico geral Kazusei Akiyama a estabelecer o braço brasileiro da Slow Medicine, chamado por aqui de Medicina Sem Pressa.
— Assisti palestras, li livros sobre o assunto e me interessei totalmente. Acreditava que o Brasil precisava desse movimento, tanto os pacientes quanto os médicos precisavam saber sobre essa prática — afirma José Carlos Campos Velho, coordenador e um dos fundadores do Slow Medicine Brasil.
Hoje, 10 anos depois de lançado, o site brasileiro tem cerca de 20 colaboradores fixos que escrevem artigos, livros, fazem palestras e ajudam a disseminar o movimento pelo país, além de mais de 14 mil seguidores nas redes sociais — em sua maioria profissionais da saúde como médicos, enfermeiros, dentistas, e até mesmo advogados.
— O que pregamos é uma medicina que chamamos de sóbria, respeitosa e justa. A sobriedade está ligada a essa questão de que todas as pessoas deveriam ter acesso aquilo que precisam de maneira mais limpa, sem excessos, como ocorre no uso de medicamentos ou exames desnecessários. Já a medicina respeitosa diz respeito à relação médico-paciente. O profissional precisa exercer um trabalho de parceria e não de paternalismo, entender o que o paciente quer e precisa, dar mais de uma opção para o tratamento dele, escutá-lo — explica o médico internista e membro do Movimento Slow Medicine Brasil André Islabão, co-autor do livro “Slow Medicine – sem pressa para cuidar bem”, do selo MG Editores.
Segundo o médico, a terceira parte, da justiça, é obtida uma vez que, com a redução dos excessos, a balança se equilibra, aumentando o acesso a cuidados de saúde por quem mais precisa e mais necessita. O movimento também se baseia em dez princípios (veja abaixo).
Entre os princípios mais importantes, segundo os membros do movimento, estão a relação com o tempo para ouvir, entender e refletir sobre o paciente. Não ter pressa para tomar decisões e dar mais atenção.
— O princípio da autonomia é bem importante também: colocar o paciente no centro do cuidado, as decisões são sempre compartilhadas com ele, de forma que ele participe ativamente. Às vezes as pessoas perguntam para quem nós trabalhamos e costumamos dizer o nome do hospital ou da instituição, mas na verdade, nós trabalhamos para o paciente. A nossa função é que o paciente seja beneficiado — diz a médica oncologista Ana Coradazzi, membro do movimento e também co-autora do livro “Slow Medicine”.
Islabão também chama atenção para o uso da tecnologia na medicina nos dias de hoje, como as cirurgias robóticas, telemedicina e as aulas de medicina à distância. Para ele, o uso sem parcimônia dessas ferramentas está afastando o contato físico entre médico e paciente.
— Quando adoecemos, queremos um médico de carne e osso, da mesma forma que quando somos crianças e nos sentimos mal, queremos o colo de nossos pais. Não queremos um médico por computador que não toca no paciente e simplesmente pede exame ou dá uma receita médica. Não é que sejamos contrários à telemedicina ou a qualquer tecnologia. Bem usada, ela pode ser positiva, mas jamais deve substituir o encontro físico. Esse uso e essa parceria precisam ter equilíbrio e bom senso — afirma Islabão.
Coradazzi destaca o crescimento do interesse pelo tema nos últimos 10 anos, como mais gente seguindo o movimento nas redes sociais, a busca por livros sobre o assunto, o aumento nos pedidos de palestras e simpósios, além da formação de ligas acadêmicas dentro de universidades espalhadas pelo Brasil sobre Slow Medicine.
— Conseguimos ver e sentir a ideia sendo disseminada pelo país e acredito que para a próxima década, o tema vai continuar sendo disseminado, discutido, alcançando mais lugares e crescendo com pessoas tendo senso crítico e querendo mudar esse sistema de saúde que está vigente hoje — diz a oncologista.


