Medicina inteligência artificial — Foto: Getty Images
O avanço da inteligência artificial (IA) atravessa todas as áreas, e a saúde não é diferente. Longe de ser uma promessa futurista, ferramentas inovadoras já são realidade na rotina de muitos médicos: uma pesquisa da consultoria McKinsey & Company mostrou que, ainda no final de 2024, 85% dos gestores americanos da área da saúde já exploravam ou haviam adotados recursos de IA.
No Brasil, o cenário é semelhante. Plataformas que geram prontuários automatizados, analisam exames, administram filas de hospitais, desenvolvem medicamentos e até mesmo sugerem diagnósticos e condutas clínicas estão se tornando parte do cotidiano de diversos profissionais e hospitais.
Uma das plataformas de IA que tem crescido no Brasil é a NoHarm.AI, fundada por Ana Helena Ulbrich, farmacêutica que foi considerada uma das 100 pessoas mais influentes no mundo da IA pela revista americana Time em 2025. Lançada em 2020, ela se integra aos dados dos hospitais e indica onde estão os potenciais erros de prescrições médicas, especialmente para pacientes críticos.
— Ela ajuda profissionais a revisar e priorizar prescrições médicas, identificar riscos e alertar sobre possíveis problemas, proporcionando maior segurança para os pacientes, além de trazer muito mais eficiência para os processos, pois organiza as informações na mesma tela e gera alertas, qualificando a avaliação das prescrições — conta Ana Helena.
Apenas em 2025, mais de 23 milhões de prescrições foram analisadas pela plataforma, que conta com mais de três mil profissionais ativos cadastrados. A NoHarm.AI estima ter impactado cerca de 3,4 milhões de vidas, 1,6 milhão apenas no ano passado.
Outra frente que tem se expandido é a de ferramentas que acompanham consultas médicas para gerar automaticamente anotações sobre o paciente. Uma das empresas pioneiras na área é a Voa Health, lançada em 2024, que atende profissionais e serviços como hospitais e operadoras de saúde.
— A Voa nasceu como uma espécie de “escrivão médico por IA”. A plataforma escuta a consulta, de forma segura e consentida, e gera automaticamente os registros clínicos personalizados para o profissional. Isso permite que o médico se concentre mais na conversa e no cuidado com o paciente, enquanto a IA cuida da documentação — conta Fillipe Loures, médico e cofundador da Voa Health.
Segundo Loures, pesquisas indicam que de 40% a 50% do tempo de uma consulta é consumido por tarefas administrativas e que esse é um dos principais fatores ligados ao burnout médico. Além disso, um estudo da Voa com mais de 500 participantes, de 2025, mostrou que 92% dos pacientes já saíram de uma consulta com a sensação de não terem sido plenamente escutados pelo profissional.
Em agosto, a Voa adicionou à sua plataforma uma outra ferramenta de IA, treinada em mais de 50 mil publicações científicas, para auxiliar o médico em tempo real respondendo a dúvidas, gerando sugestões para o caso, justificativas para planos de saúde. Até o momento, mais de 1,5 milhão de atendimentos já foram realizados com apoio da Voa, cerca de 200 mil por mês
Quem também tem começado a implementar uma tecnologia semelhante às consultas, desenvolvida internamente, é a Rede D’Or, maior do país, que administra cerca de 80 hospitais. Nos pronto-socorros das unidades, uma IA que acompanha as consultas e faz o prontuário também passou a ser disponibilizada e tem gerado bons resultados entre os médicos, conta Ariel Dascal, Chief Digital Officer (CDO) da Rede D'Or:
— Em alguns casos, a IA pode já dar uma sugestão de hipótese de diagnóstico e como seguir, mas sempre para a avaliação do médico. Isso ajuda o raciocínio do profissional. Nós colocamos sem obrigação de uso, mas temos unidades com 98% de aderência, independentemente se o médico é novo ou velho, se gosta mais de dispositivos digitais ou não. Ficamos surpresos com o quão fácil tem sido a adesão e temos recebido depoimentos muito bacanas, profissionais dizendo que já não se veem mais trabalhando sem as ferramentas.
Na sequência, exames, consultas, tudo fica arquivado no histórico do paciente e é acompanhado pela IA. Essa integração pode levar até mesmo a diagnósticos precoces. Dascal cita de exemplo que uma pessoa que entra no pronto-socorro com suspeita de pneumonia e faz um exame de tórax pode acabar tendo um pequeno nódulo, que não era o que estava sendo buscado e passaria despercebido, detectado pela IA.
Essa análise de exames com auxílio da inteligência artificial é de fato uma das áreas mais promissoras no campo. Segundo uma pesquisa da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), feita com laboratórios privados do país em 2024, ferramentas do tipo já são rotineiramente utilizadas para avaliar laudos e identificar suspeitas de casos urgentes, priorizando eles para a análise por médicos radiologistas.
O Einstein Hospital Israelita é outra unidade de referência que vem adotando tecnologias semelhantes. O HStory, por exemplo, é uma ferramenta desenvolvida também internamente que integra dados de pacientes numa única plataforma e os monitora com algoritmos de IA. Outra frente é a Centro de Monitoramento Assistencial (CMOA), que acompanha os parâmetros vitais dos pacientes 24 horas por dia e permite que haja um alerta precoce em casos de deterioração clínica.
— Essas ferramentas trazem o histórico do paciente, integram dados e geram algoritmos preditivos de doenças futuras, encontram anormalidades em exames de imagem e geram hipóteses diagnósticas permitindo a ampliação das opções ao médico — conta Eliézer Silva, diretor do Sistema de Saúde Einstein no Einstein Hospital Israelita.
Essa realidade tem sido cada vez mais comum e, em breve, deve chegar também à rede pública com o primeiro hospital inteligente do Sistema Único de Saúde (SUS) no futuro Instituto Tecnológico de Emergência do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP). Previsto para 2030, a unidade vai integrar tecnologias avançadas de IA, telessaúde, ambulâncias conectadas por 5G, automação hospitalar e sistemas de gestão preditiva.
Alexandre Chiavegatto Filho, diretor do Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde (Labdaps) da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), explica que o próximo passo será ter uma IA tão integrada ao contexto do paciente e bem treinada que conseguirá auxiliar profundamente no diagnóstico e na decisão clínica da melhor intervenção terapêutica. Para ele, esse será o uso que vai revolucionar o sistema de saúde, mas ainda não existem algoritmos que conseguem fazer isso plenamente com a segurança necessária:
— De todas as aplicações de IA até hoje, em todos setores, essa vai ser a que terá o maior impacto e benefício na minha opinião. São algoritmos capazes de identificar o problema, a gravidade e indicar o melhor tratamento. Só que estamos mais distantes porque é uma área que não pode errar, é uma questão de vida ou morte. Mas, a cada semana, temos algoritmos melhores que os anteriores.
Ele conta que outro desafio é fazer com que esses algoritmos consigam se adaptar às diferentes realidades sem reproduzir preconceitos ou vieses, já que eles são treinados em populações muito distintas. Essa é uma das principais frentes do seu laboratório, que conta hoje com cerca de 30 pesquisadores.
— Buscamos entender como garantir que esses algoritmos vão funcionar em todas as realidades da saúde brasileira, do país mais diverso e mais desigual do mundo. Temos uma quantidade imensa de realidades aqui dentro, então um algoritmo que aprenda com dados de regiões como São Paulo, não necessariamente funciona no resto do país, principalmente nas regiões menores, mais remotas. Então temos desenvolvido algoritmos para identificar e corrigir esses desafios da desigualdade em saúde no Brasil — explica.
Enquanto isso, há outros usos da IA no campo da saúde que tem se expandido. Plataformas de IA generativa, como o ChatGPT e o Gemini, que já são muito usadas para fornecer informações sobre saúde, também decidiram criar funcionalidades específicas para o cuidado. O ChatGPT Health, por exemplo, permitirá conectar registros médicos e dados de aplicativos de bem-estar em um único espaço para basear as conversas nas próprias informações de saúde do usuário.
Há ainda a área de desenvolvimento de novos fármacos. De acordo com uma pesquisa da empresa de consultoria McKinsey & Company, a IA poderá gerar de US$ 60 bilhões a US$ 110 bilhões por ano em economia para as indústrias farmacêutica e de produtos médicos por acelerar o processo de identificação de compostos para possíveis novos medicamentos.
Os números são atraentes para os laboratórios, já que, segundo a consultoria, as empresas farmacêuticas geralmente gastam cerca de 20% das receitas em pesquisa e desenvolvimento, e a criação de um novo remédio leva, em média, de 10 a 15 anos, ou seja, demora para que o investimento volte para a farmacêutica.
No final de 2025, a japonesa Takeda anunciou que seu comprimido experimental contra a psoríase desenvolvido com auxílio de IA, o zasocitinibe, obteve sucesso em dois estudos de fase final e que o pedido para aprovação às agências reguladoras deve ocorrer neste ano. Se aprovado, será o primeiro medicamento desenvolvido pela tecnologia.
— Esperamos que esses algoritmos vão de fato mudar profundamente todo o sistema de saúde nos próximos anos. Essas tecnologias vão fazer descobertas científicas, vão trazer novos medicamentos, vão melhorar decisões clínicas e facilitar o dia a dia dos profissionais — diz Chiavegatto Filho.


