O fluxo externo para a Bolsa brasileira atropelou os investidores locais e está levando o mercado a rever as referências de valuation.
“Quando olhamos as métricas históricas de Itaú, ele parece caro. Mas os bancos em países como Chile e Colômbia parecem caros. O ouro também. O fluxo está mudando os valuations,” disse Christian Faricelli, portfolio manager na Absolute Investimentos.
O Itaú negocia a 10x o lucro para 2026, acima de sua média histórica. Na América Latina, Banorte negocia a 8x, o Banco do Chile, a 16,5x e o Galicia, a 20,7x.
“Estamos com uma cabeça de bear market e precisamos nos ajustar,” Christian Keleti, CEO da Alpha Key, disse ao Brazil Journal. O desafio é separar o que é estrutural das distorções.
Os gestores discutiram o assunto durante um painel na manhã de hoje na Latin America Investment Conference, do UBS.
“Os investidores estão comprando indistintamente as maiores empresas, muitas vezes via EWZ, e alguns valuations não fazem sentido. Ambev perto do high histórico, no momento atual, é um exemplo,” disse Keleti.
A fabricante da Brahma e Antarctica negocia a 15x o lucro para este ano – contra uma média de 18,7x nos últimos 10 anos – num momento em que a empresa tem dificuldade em aumentar preços acima da inflação e a tendência de consumo de bebidas alcoólicas é uma dúvida.
Num mercado que já não era grande e encolheu nos últimos anos com os fechamentos de capital, “pode faltar papel,” disse Keleti.
Ao mesmo tempo, não dá para fight the flow, disseram os gestores. Mesmo com o risco eleitoral no radar e a possibilidade de a queda dos juros ser mais tímida do que o esperado, os dois estão fazendo hedge para uma valorização maior da Bolsa, e não para uma possível baixa.
Os FIAs da Absolute e da Alpha Key retornaram entre 40% e 50% nos últimos 12 meses. O macro tem um peso relevante na análise que as duas casas fazem para decidir seu stock picking – e deu resultado no último ano.
Para Faricelli, a maneira como o governo Trump está conduzindo a economia americana deve manter um fluxo relevante para mercados emergentes ao longo do ano.
A eleição presidencial no Brasil, segundo os gestores, só começou a entrar no radar dos investidores externos mais recentemente.
E a visão predominante dos estrangeiros, ao menos por enquanto, é a de que o governo atual é um mal conhecido e não catastrófico, disseram eles.
“Os locais, de forma geral, gastaram mais tempo do que deveriam com eleição em 2025,” disse Faricelli.
Obviamente o resultado da eleição pode reprecificar os ativos brasileiros se o vencedor tiver uma agenda clara de disciplina fiscal e reformas.
“Se dermos um check na caixinha da eleição, o fluxo pode ser assustador,” disse Keleti.
No micro, uma das principais posições da Absolute é Sabesp – que, na visão de Faricelli, combina crescimento, capex consistente e boas margens. Além disso, a empresa pode participar de processos de privatização como o da Copasa.
Na Alpha Key, um dos grandes investimentos é a Allos, que, segundo Keleti, faz uma ótima gestão de capital e deve entregar um dividend yield anual de 13% nos próximos três anos.
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