Enquanto muitos shopping centers ainda lutam para reduzir a vacância e acelerar a locação de espaços, o Grupo AD decidiu colocar uma nova vendedora para trabalhar 24 horas por dia, via WhatsApp e com poder real de fechar negócios. Mas ela não usa crachá, não faz pausa para o almoço e não depende do horário comercial. É uma assistente virtual com inteligência artificial (IA).

Batizada de Lug, em referência ao AlugueOn, plataforma digital da companhia voltada à comercialização desses espaços, a assistente passou a atuar diretamente no marketplace do grupo e hoje conduz praticamente todo o processo de negociação com potenciais lojistas.

Segunda maior administradora de shoppings do País, com 44 centros de compras e mais de 1 milhão de metros quadrados (m²) de área bruta locável (ABL), o Grupo AD investiu no desenvolvimento de um modelo próprio de assistente virtual, inspirado em iniciativas como a Lu, do Magazine Luiza, para agilizar - e automatizar - toda a jornada de locação de lojas, quiosques e espaços de mídia.

“A tecnologia hoje é fundamental para o crescimento de uma empresa. O desenvolvimento da inteligência artificial, principalmente na área comercial, tem um componente muito ligado ao avanço do negócio e à redução de custos”, afirma Helcio Povoa, fundador e CEO do Grupo AD, em entrevista ao NeoFeed.

Em poucas semanas, os números da Lug surpreenderam Povoa. Desde o início do projeto-piloto, em novembro do ano passado, a geração de leads qualificados - clientes com maior potencial de fechamento — avançou 38%. Na prática, segundo a companhia, a IA já entrega o lojista “pronto” para a negociação.

Dos mais de 1,6 mil novos contratos assinados em 2025, o AlugueOn já responde por 22% das conversões. Dentro desse volume vindo do canal digital, a entrada da assistente virtual fez essa fatia crescer 56%.

“A IA nos possibilitou ter toda a conversa com o cliente e até avançar para propostas. Hoje ela é um agente que fecha negócio. Ela só não aprova e não assina. A evolução é muito grande”, diz Povoa.

Na prática, trata-se da única solução do tipo em operação no setor de shoppings no Brasil. A Lug apresenta opções de locação, tamanhos e valores, avalia o perfil do interessado e até recomenda se determinado segmento já está saturado naquela unidade. A partir dessa leitura, sugere alternativas que façam sentido para o mix de cada shopping.

A atuação da “vendedora” digital também tem ajudado o grupo a manter o índice de vacância dos shoppings em patamares historicamente baixos, em torno de 3%.

Enquanto uma negociação física costuma levar cerca de 20 dias até a assinatura do contrato, via assistente virtual a locação de um espaço simples pode ser concluída em três ou quatro dias.

“A Lug faz um trabalho muito criterioso, busca boas marcas e atua no complemento de mix. Ela vende muito bem lojas-satélite e quiosques”, afirma Povoa.

“Hoje, dá para dizer que ela já é a nossa executiva high performer. A expectativa não é apenas trazer novos contratos, mas evoluir continuamente a Lug, para que ela se torne cada vez mais especialista em shoppings e ajude melhor nossos usuários”, complementa.

Além de aprofundar o “cérebro” da assistente, o grupo pretende ampliar suas funções. A ideia é que a Lug deixe de atuar apenas como vendedora digital e passe a exercer também o papel de relações públicas da rede de shoppings.

Esse upgrade deve ocorrer ainda no primeiro trimestre. Entre os planos está substituir os tradicionais totens de informação por interações por voz, em que o consumidor poderá perguntar diretamente à IA sobre localização de lojas, serviços e eventos.

“Pretendemos que a Lug interaja cada vez mais com nossos clientes. Tudo isso sem precisar digitar. O cliente vai simplesmente perguntar para ela”, afirma Magali Sanches, sócia e diretora comercial do Grupo AD.

Embora reconheça a inspiração na assistente do Magalu, a diretora comercial destaca que o projeto foi desenvolvido internamente pela equipe de TI do grupo, com apoio de uma empresa especializada.

A parceria com a varejista, aliás, é antiga. O Magazine Luiza está entre os principais lojistas da rede, e, no lançamento do AlugueOn, em 2021, a própria Luiza Helena Trajano participou com um depoimento institucional sobre a iniciativa.

O próximo passo é levar a Lug para fora da rede do Grupo AD, transformando a assistente virtual em uma prestadora de serviços para terceiros. Já há estudos para aplicar o modelo em galpões logísticos e até em shoppings de outros grupos.

Com isso, o AlugueOn e a Lug devem se consolidar como uma nova unidade de negócios da companhia.

O plano de 50 shoppings em 2026

A aposta em tecnologia ocorre em paralelo ao plano de crescimento. O Grupo AD pretende chegar a 50 shoppings em 2026, somando aquisições, novos projetos e contratos de gestão. Para isso, separou R$ 330 milhões em investimentos.

Hoje, a companhia administra 44 shoppings, sendo 16 próprios, com 6,2 mil lojas espalhadas pelas cinco regiões do país e circulação anual de cerca de 225 milhões de consumidores. São centros comerciais como o Shopping Tatuapé (São Paulo), São Luís Shopping (Maranhão), ViaShopping (Belo Horizonte), Shopping ABC (Santo André) e Shopping Jardim Oriente (São José dos Campos). Em 2025, as vendas dos centros de compras do grupo somaram R$ 7,5 bilhões.

A expansão inclui a aquisição de participação em dois shoppings na capital paulista, negociações que devem ser concluídas até março, além da entrada de dois empreendimentos no Rio de Janeiro sob sua gestão, o que adicionará cerca de 120 mil m² de ABL — um crescimento de 10% na área disponível para novas lojas.

Em quantidade, a companhia só perde para o Allos, que tem 55 shoppings. A Argoplan, que é a terceira maior administradora do Brasil e que foi criada em junho do ano passado, a partir da fusão da Argo com a Replan, tem hoje 32 shoppings. A Multiplan é dona de 20 centros de compras, e o Iguatemi, 15.

No plano de expansão do Grupo AD estão a aquisição de participação de dois shoppings na cidade de São Paulo, em uma negociação que deve ser concretizada até março.

Além disso, dois shoppings do Rio de Janeiro passarão para a gestão do grupo. Com isso, a companhia deve ganhar pelo menos 120 mil m² de ABL, o que significará um crescimento de 10% em área para novas lojas.

Do total de investimentos, R$ 180 milhões serão destinados a um projeto greenfield em Primavera do Leste, no Mato Grosso. O shopping terá 20 mil m² de ABL, com início das obras previsto para o segundo semestre e inauguração estimada para o fim de 2028.

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