O Bitcoin encerrou 2025 com um quê de decepção: uma leve queda no ano, enquanto quase todos os ativos tradicionais subiram (até o Ibovespa!).
Ainda assim, 55% dos hedge funds globais já têm exposição a criptoativos, com uma alocação média próxima de 7%, sinalizando convicção crescente por parte do capital profissional.
Isso levanta a pergunta: existe ainda potencial para o Bitcoin e demais criptomoedas, ou 2026 será um ano de bear market (ou “inverno cripto”)?
Mas talvez a pergunta mais relevante seja outra: qual é o papel do Bitcoin em um mundo que parece caminhar, ao mesmo tempo, para mais liquidez e mais instabilidade?
De um lado, vemos a inflação nos Estados Unidos em queda e os primeiros sinais de um novo ciclo de expansão de liquidez. De outro, eventos geopolíticos adicionando tensão aos mercados toda semana. Neste contexto, o Bitcoin passou por um processo claro de amadurecimento e agora é tratado pelos investidores institucionais como uma peça estratégica no portfólio, justamente por dialogar com esses dois cenários.
Esta é a grande mudança. Durante anos, o mercado de cripto se organizou em torno de uma profecia autorrealizável: o ciclo de quatro anos. Halving, escassez programada e um bull market quase automático. Esse modelo ajudou a explicar o passado, mas perdeu poder explicativo à medida que o Bitcoin cresceu e se integrou ao sistema financeiro global.
Hoje, o ativo se comporta muito mais como as bolsas globais do que como um instrumento completamente descorrelacionado. Ele deixou de depender de um único gatilho estrutural e passou a reagir a vetores macroeconômicos mais amplos. É nesse ponto que sua natureza “dual” começa a se revelar.
O primeiro vetor é a liquidez. O debate sobre o fim do aperto monetário e a transição gradual para um ambiente mais expansionista ganhou força. Mesmo sem um retorno explícito ao quantitative easing tradicional, o sistema começa a ser irrigado por vias alternativas. A política fiscal americana tende a desempenhar papel relevante nesse processo, com o governo sinalizando maior disposição para intervir em setores sensíveis, como o imobiliário, por meio da recompra de títulos e estímulos indiretos.
Nesse ambiente, o Bitcoin se comporta como um ativo de alta convexidade. Ele costuma reagir de forma amplificada a ciclos de expansão de liquidez, especialmente quando comparado a ativos tradicionais.
O segundo vetor é o risco. Metais preciosos renovam máximas históricas em conjunto. Ouro, prata e outros ativos tradicionalmente associados à proteção patrimonial funcionam como termômetros de um mundo mais fragmentado, mais político e menos previsível.
É nesse contexto que o Bitcoin começa a ocupar um espaço novo. Não mais apenas como ativo especulativo, mas como instrumento não soberano, resistente à interferência direta de Estados e, para muitos gestores, complementar ao ouro. Ele é, ao mesmo tempo, impulsionado por liquidez e um hedge ao debasement monetário.
Grandes casas, como a BlackRock, já reconhecem esse papel potencial do Bitcoin como diversificador e, em certos cenários, como ativo de proteção. Inclusive, um relatório recente da gestora apontou que o Bitcoin sobe, em média, 38,8% nos 60 dias após eventos geopolíticos de alto impacto.
Ele não substitui o ouro – e não precisa. Seu valor está justamente na opcionalidade.
Estudos recentes mostram que a demanda institucional por Bitcoin superou a nova oferta do ativo por múltiplos significativos nos últimos anos, uma dinâmica que tende a persistir em 2026.
Pesquisas com profissionais do mercado financeiro indicam que a maioria dos advisors que já alocam em cripto pretende manter ou aumentar essa exposição. Entre hedge funds, o movimento é semelhante: mais da metade já possui exposição direta ou indireta ao mercado cripto.
O Bitcoin deixou de ser tratado como uma aposta marginal e passou a integrar a alocação estratégica de risco. Por isso, deve se beneficiar tanto de um ambiente de maior liquidez quanto de um mundo estruturalmente mais instável.
Em um mundo mais líquido, e ao mesmo tempo mais incerto, poucos ativos conseguem dialogar com os dois lados dessa equação. O Bitcoin está tentando ser um deles, e o mercado institucional já começou a enxergar isso.
Vinícius Bazan é CEO da Underblock, uma casa de análise e educação especializada em criptoativos.
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