Na era da inteligência artificial, a coleta, o tratamento e a utilização dos dados alteram como as empresas se desenvolvem — Foto: Arte/Época NEGÓCIOS
Quase toda troca comercial é, ao menos parcialmente, um escambo. A frase de Maryam Farboodi e Laura Veldkamp no artigo Data and Markets, publicado na Annual Review of Economics em 2023, é forte e precisa para o mundo no século 21. Há uma nova economia dos dados que alterou, segundo as autoras, como e quais bens e serviços são oferecidos, como as empresas competem e como os ativos financeiros são precificados. Uma dinâmica que inclusive mudou as próprias estruturas de diferentes mercados e até o mecanismo de crescimento das empresas.
Os dados são um insumo valioso para previsões. Isso já era verdade tanto em programas de fidelidade de supermercados e companhias aéreas como na análise feita em bureaus de crédito para a concessão de empréstimos. Muito antes da internet, o varejo já utilizava programas de cupons como uma ferramenta essencial para identificar e fidelizar clientes mais sensíveis ao preço dos seus produtos.
Hoje, Farboodi e Veldkamp nos lembram que algoritmos substituíram em grande parte a tomada de decisão "manual", seja no serviço de streaming que quer te recomendar uma nova série, no site de uma empresa de calçados que quer personalizar a sua experiência, no aplicativo de mobilidade que quer recomendar paradas estratégicas em locais de anunciantes, no serviço de e-mail que oferece revisão de texto (e até se propõem a completar as frases enquanto escrevemos) ou até no banco ao te oferecer um empréstimo. Claro, em todos esses casos, o desenho, os critérios, as políticas e as estratégias mercadológicas foram feitas por humanos.
A troca mais clara ocorre nos aplicativos "gratuitos". Parafraseando o pai da economia moderna, Adam Smith, o surgimento deles não decorre da benevolência dos seus desenvolvedores, mas da busca pelos seus interesses individuais. O preço zero não implica prejuízo, apenas que a receita será decorrente de alguma outra atividade: a utilização dos dados para oferta de outros serviços por parte da empresa que desenvolveu o aplicativo ou, em muitos casos, a comercialização desses dados à terceiros.
Na literatura sintetizada por Farboodi e Veldkamp, existem ao menos dois canais que se retroalimentam e impactam a dinâmica das empresas: o canal do crescimento e o canal financeiro. No primeiro, os dados coletados pelas empresas estão sujeitos aos chamados ganhos de escala: quanto mais dados eu tenho, mais oportunidades consigo explorar. Por isso, grandes empresas acabam extraindo mais valor dos mesmos dados do que empresas menores conseguiriam. Imagine um market place. A utilização dos dados tanto de consumidores e vendedores impulsiona o crescimento da empresa, que, por sua vez, por ter crescido, consegue coletar mais dados e oferecer uma experiência melhor para as duas pontas desse mercado, fomentando assim um novo ciclo de crescimento.
O segundo canal é do loop financeiro e está baseado no trabalho das autoras com Juliane Begenau, Big data in finance and the growth of large firms, publicado no Journal of Monetary Economics em 2018: com mais dados sobre as empresas, os investidores conseguem projetar com mais acurácia o desempenho delas. Isso implica em uma redução da incerteza e, com ela, a percepção de que operação oferece menos risco, o que, geralmente, acaba por se traduzir no mercado financeiro em juros menores. Dessa forma, a queda no custo de capital torna mais projetos viáveis, o que acaba por impulsionar o crescimento da empresa.
Na era da inteligência artificial, a coleta, o tratamento e a utilização dos dados alteram como as empresas se desenvolvem, o que impacta no nível de competição nos mercados – seja porque os dados podem tanto ser uma barreira à entrada em alguns casos, o que gera a possibilidade de que empresas se tornem superstars e dominem os mercados, como porque podem se tornar um facilitador para que novas empresas rivalizem com as incumbentes. Aliás, este último é um ponto importante. Há quem acredite estar protegido da competição pela capacidade de coletar o que hoje chamamos de big data. Mas Anja Lambrecht e Catherine Tucker nos lembram, em Can Big Data Protect From Competition?, que só a coleta não torna sustentável essa vantagem competitiva, é preciso ter capacidade de analisar e desenvolver soluções a partir desses dados.
Toda vez que adquirimos algum bem ou serviço, pagamos (ao menos parcialmente) também com os nossos dados. Essa é a base da chamada Economia Digital. Compreender essa dinâmica é essencial para entender o mundo do século 21. E vale muito.
João Ricardo Costa Filho é doutor em Economia pela Universidade do Porto, é pesquisador sênior e coordenador do Núcleo de Economia Digital do Reglab


