A revista britânica The Economist afirmou, em texto publicado na 5ª feira (12.fev.2026), que os países ricos deveriam estar atentos e se precaver do que chama de uma “brasileirização” fiscal de suas economias.
No artigo, publicado na seção Leaders –que reúne opiniões institucionais da revista–, a Economist reconhece que o Brasil tem um “crescimento econômico razoável, um Banco Central independente” e que seu saldo orçamentário primário, excluindo os pagamentos de juros, “está quase equilibrado”.
A publicação menciona que “a dívida líquida, em 66% do PIB [Produto Interno Bruto], é elevada pelos padrões dos mercados emergentes, mas baixa quando comparada com a dos países ricos”.
O problema, segundo a revista, são as taxas de juros elevadas que o governo precisa pagar para financiar sua dívida. Em janeiro, o Copom (Comitê de Política Monetária) manteve a Selic em 15% ao ano. “Como resultado, e apesar de estar próximo do equilíbrio primário, o governo provavelmente terá de contrair empréstimos equivalentes a 8% do PIB por ano apenas para pagar juros”, afirma.
A Economist diz que a adoção do receituário da austeridade pelo atual governo é improvável. “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva [PT], que faz campanha para a reeleição em outubro, afrouxou a política de gastos. A menos que as taxas de juros caiam significativamente, a dívida pública vai disparar”, declara o texto.
Essa “difícil” situação orçamental brasileira colocaria em evidência os desafios enfrentados pelas grandes economias. Para a publicação, os formuladores de políticas no Ocidente deveriam refletir sobre por que os juros no Brasil são tão elevados e extrair lições para seus próprios países.
Segundo a Economist, a taxa de 15% se explica pelo fato de que o Brasil, apesar de contar com proteções formais como a independência do Banco Central e a separação dos Poderes, possui instituições frágeis, “que vacilaram durante a tentativa de golpe do presidente Jair Bolsonaro [PL]”. Além disso, o legado da hiperinflação dos anos 1980 e início dos 1990, somado à crise econômica de meados de 2010, teria tornado a inflação mais “volátil”.
O ponto mais enfatizado pela revista, contudo, é a parcela do orçamento comprometida com a Previdência. “O governo brasileiro gasta 10% do PIB com aposentadorias. Sem reformas, até 2050, gastará mais com pensões do que os países mais ricos e mais envelhecidos”, afirma. A Economist diz que o regime previdenciário é protegido pela Constituição de 1988, que determina que, “quando o salário mínimo aumenta, os aposentados recebem mais”, o que dificultaria “o equilíbrio das contas públicas” e limitaria “outros gastos mais produtivos”.
A revista britânica declara, por fim, que esse diagnóstico sobre o Brasil “deveria preocupar os países mais ricos, que apresentam sintomas iniciais de brasileirização”.
A publicação fala sobre quais seriam tais sintomas. Especificamente nos Estados Unidos, se manifestariam na politização do Departamento de Justiça pelo presidente Donald Trump (Partido Republicano), no desejo do atual governo em controlar o Fed (Federal Reserve) e em federalizar as eleições do país.
Já nas grandes economias, no geral a revista diz que, com “as fortes subidas de preços que se seguiram à pandemia, com a geopolítica ameaçando as cadeias de suprimentos, a inflação tornou-se um risco maior do que nas últimas décadas”.
Além disso, “os gastos com aposentadoria e saúde estão crescendo à medida que a população envelhece. As aposentadorias podem não ter o mesmo nível de proteção formal que no Brasil, mas os eleitores mais velhos apoiam-nas. Basta olhar para o ‘triple lock’ britânico, que garante que as pensões crescem acima dos salários no longo prazo”.
A Economist avalia que se isso elevar as taxas de juros, os dilemas orçamentais atuais dos países ricos poderão parecer modestos. “Muitas grandes economias estão se esforçando para encontrar mais 1% ou 2% do PIB para seus gastos com defesa. Imagine se tivesses de encontrar o dobro disso apenas para pagar juros da dívida”, declara.
“Em um mundo populista, pode parecer dolorosamente difícil prometer baixa inflação e, ao mesmo tempo, garantir gastos com os idosos. Mas isso não se compara à escolha angustiante que se coloca ao Brasil: entre uma austeridade profunda e uma espiral assustadora de dívida e juros”, diz a publicação.


