Autodeclarado metade artista e metade capitalista, Laliberté ajudou a "reembalar" o circo, como ele próprio define BBC News fonte Michael Tran / FilmMagic Autodeclarado metade artista e metade capitalista, Laliberté ajudou a "reembalar" o circo, como ele próprio define BBC News fonte Michael Tran / FilmMagic

O bilionário excêntrico por trás do Cirque du Soleil

2026/02/23 02:48
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Autodeclarado metade artista e metade capitalista, Laliberté ajudou a "reembalar" o circo, como ele próprio define — Foto: BBC News fonte Autodeclarado metade artista e metade capitalista, Laliberté ajudou a "reembalar" o circo, como ele próprio define — Foto: BBC News fonte

Conheça o palhaço bilionário que cospe fogo e anda sobre pernas de pau: Guy Laliberté.

Autodeclarado metade artista e metade capitalista, Laliberté ajudou a "reembalar" o circo, como ele próprio define, transformando o circo em um espetáculo artístico de alto nível por meio da companhia que co-fundou e que hoje é conhecida mundialmente como Cirque du Soleil.

Laliberté nasceu na cidade de Quebec, no leste do Canadá, em 1959. Um personagem expansivo que dorme entre uma e seis horas por noite. É alguém que aposta alto no pôquer, literalmente, e nos negócios. Ele também é conhecido por organizar festas extravagantes com celebridades e acrobatas.

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'Causador de problemas'

Guy Laliberté é conhecido por organizar festas extravagantes repletas de acrobatas — Foto: BBC News fonte Guy Laliberté é conhecido por organizar festas extravagantes repletas de acrobatas — Foto: BBC News fonte

Guy Laliberté cresceu em uma família barulhenta, com mais de 120 parentes que promoviam festas de 48 horas, em meio a música, jogos de cartas e travessuras.

Como muitos bilionários, demonstrou cedo uma propensão para negócios. Aos cinco anos, vendia figurinhas de beisebol no pátio da escola e praticava acordeão, instrumento que encontrou no armário do pai.

Uma viagem na infância a um circo tradicional dos Estados Unidos o deixou fascinado. Mas a escola, não. Aos dez anos, foi enviado a um internato rigoroso que, segundo disse mais tarde, "matou a alma" de algumas das crianças ao seu redor.

Na juventude, Laliberté conheceu artistas circenses que lhe ensinaram a fazer malabarismo, cuspir fogo e andar sobre pernas de pau — Foto: BBC News fonte Na juventude, Laliberté conheceu artistas circenses que lhe ensinaram a fazer malabarismo, cuspir fogo e andar sobre pernas de pau — Foto: BBC News fonte

Na adolescência, ele foi movido pela raiva. Foi expulso de várias escolas, brigou com os pais sobre qual carreira seguir e, aos 14 anos, fugiu de casa.

Quando voltou, fez um acordo: estudaria, mas manteria o cabelo comprido e ganharia o seu próprio dinheiro. Ele passou a tocar música nas ruas de Quebec para conseguir isso.

Aos 18 anos, pegou o acordeão e US$ 50 (cerca de R$ 260, em valores aproximados, considerando a taxa de câmbio atual) e viajou pela Europa. Dormiu em bancos de parques em Londres e conheceu artistas circenses que lhe ensinaram a fazer malabarismo, cuspir fogo e andar sobre pernas de pau.

As habilidades aprendidas no fim da década de 1970 se tornaram a base de um dos espetáculos ao vivo mais famosos do mundo.

Reinventando o circo

Os fundadores do Cirque du Soleil tinham a ambição de criar um novo tipo de circo, com integridade artística e sem animais em cena — Foto: BBC News fonte Os fundadores do Cirque du Soleil tinham a ambição de criar um novo tipo de circo, com integridade artística e sem animais em cena — Foto: BBC News fonte

De volta ao Canadá, passou por empregos temporários — trabalhou brevemente em uma fábrica e depois em uma usina hidrelétrica — até que uma greve sindical o levou à pequena cidade de Baie-Saint-Paul, em Quebec.

Ali conheceu duas pessoas que mudariam sua vida: Daniel Gauthier e Gilles Ste-Croix, este um marionetista politicamente radical ligado ao Bread and Puppet Theater, grupo de teatro experimental dos EUA, fundado em 1963, nos EUA, conhecida por espetáculos políticos com bonecos gigantes e apresentações de rua.

Ste-Croix fundou uma trupe de artistas que andavam sobre pernas de pau. Laliberté ingressou no grupo e rapidamente ascendeu à liderança, tornando-se responsável por organizar espetáculos e captar recursos.

A grande ideia do trio surgiu em 1982, na forma de um festival de rua com artistas circenses e alguns palhaços que aparentemente vendiam LSD.

Esse festival alimentou a ambição de criar um novo tipo de circo — com integridade artística e sem animais em cena.

Hollywood se encantou com os espetáculos do Cirque du Soleil — Foto: BBC News fonte Hollywood se encantou com os espetáculos do Cirque du Soleil — Foto: BBC News fonte

A oportunidade veio em 1984, quando o Canadá buscava projetos culturais para marcar seu 450º aniversário. Laliberté apresentou a proposta de um circo itinerante. Contra as expectativas, o governo aprovou e concedeu um contrato de US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,2 milhões nas taxas de câmbio atuais).

O Cirque du Soleil nasceu sob uma tenda azul e amarela com 800 lugares.

Laliberté, então com 25 anos, atuava como cuspidor de fogo — vangloriando ser um dos melhores do mundo.

Os primeiros anos foram difíceis.

"Tivemos todos os problemas que uma grande tenda iniciante pode ter", disse à revista Forbes em 2004. "A tenda caiu no primeiro dia. Tivemos problemas para levar público aos espetáculos. Só sobrevivemos graças à coragem e à arrogância da juventude."

As parcelas de empréstimos se acumulavam, e os bancos recusavam financiamento.

De começos difíceis, Laliberté transformou seu circo em um fenômeno mundial — Foto: BBC News fonte De começos difíceis, Laliberté transformou seu circo em um fenômeno mundial — Foto: BBC News fonte

Apenas um pequeno banco comunitário decidiu apostar na companhia. A primeira tentativa de expansão para fora do Canadá — para o destino turístico das cataratas do Niágara (na fronteira entre Canadá e EUA) — vendeu tão poucos ingressos que o espetáculo precisou ser encerrado.

A empresa quase quebrou, mas fornecedores locais estenderam o crédito e, segundo Laliberté, fizeram isso simplesmente porque "nos amavam, confiavam em nós".

A aposta deu resultado. Em 1987, o Cirque du Soleil abriu o Festival de Los Angeles.

Laliberté apostou tudo — literalmente cada centavo — naquela apresentação. Encheu a plateia de celebridades, entre elas Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger.

Em 2005, a emissora CBS citou Laliberté dizendo que buscava dialogar com todas as culturas.

"Nossa abordagem era muito simples. A proposta era criar uma linguagem universal. Um espetáculo que fosse atraente para as pessoas de todo o mundo. E isso foi algo grandioso."

O espetáculo foi um sucesso, e Hollywood se apaixonou por ele. Michael Jackson teria assistido mensalmente, disfarçado.

"Nós contribuímos para que esta cidade crescesse cultural e artisticamente", afirmou à CBS. "Provamos que as pessoas podiam ser sofisticadas."

Sem abrir mão dos princípios

No fim da década de 1990, o Cirque du Soleil empregava 1.300 palhaços, acrobatas e dançarinos de 23 países — Foto: BBC News fonte No fim da década de 1990, o Cirque du Soleil empregava 1.300 palhaços, acrobatas e dançarinos de 23 países — Foto: BBC News fonte

Em pouco tempo, o Cirque du Soleil fazia turnês mundiais, com ingressos esgotados em Londres, Paris e no Japão. Mas Laliberté mirava uma base permanente em Las Vegas.

Após o fracasso de um acordo inicial, recebeu uma ligação do magnata dos cassinos Steve Wynn, que, em demonstração de confiança, construiu para o Cirque du Soleil um teatro próprio de US$ 36 milhões (cerca de R$ 187,2 milhões) em Las Vegas. O espetáculo Mystère foi um enorme sucesso.

Em um ano, a receita alcançou US$ 30 milhões (cerca de R$ 156 milhões). No fim da década de 1990, as produções do Cirque du Soleil em Las Vegas transformaram o cenário de entretenimento da cidade, ajudando a transformar sua imagem, de capital do jogo, em destino de grandes espetáculos voltados para toda a família.

Em apenas dois anos, a receita de Mystère saltou de US$ 30 milhões para US$ 110 milhões (cerca de R$ 570 milhões), refletindo a tendência da época no entretenimento ao vivo: grandes produções, grandes turnês.

No fim dos anos 1990, a empresa empregava 1.300 palhaços, acrobatas e dançarinos de 23 países, e apenas a folha de pagamento somava US$ 80 milhões (cerca de R$ 416 milhões).

Em 2004, a revista Forbes avaliou o Cirque du Soleil em US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6 bilhões) — Foto: BBC News fonte Em 2004, a revista Forbes avaliou o Cirque du Soleil em US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6 bilhões) — Foto: BBC News fonte

Laliberté recusou ofertas para abrir capital na bolsa, afirmando que relatórios trimestrais eram "algo com o qual não posso conviver". Ele também rejeitou vender a empresa à Disney.

Em vez disso, ele expandiu para comercialização de produtos, produção cinematográfica e colaborações de alto perfil, incluindo espetáculos temáticos sobre os Beatles, Elvis Presley e Michael Jackson.

Nem tudo foi perfeito. Em 1999, o cofundador Daniel Gauthier deixou a empresa, e vários espetáculos nos anos 2000 acumularam prejuízos expressivos.

Em 2004, a Forbes avaliou o Cirque du Soleil em US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6 bilhões), e Laliberté se tornou oficialmente bilionário. No mesmo ano, a revista Time o incluiu entre as pessoas mais influentes do mundo — possivelmente o primeiro palhaço a integrar a lista.

Em 2008, ele vendeu 20% da companhia a investidores de Dubai. A crise financeira global frustrou os planos de expansão, e as receitas caíram.

Em 2015, Laliberté vendeu sua participação majoritária a investidores dos Estados Unidos, da China e do Canadá, por cerca de US$ 1,5 bilhão (aproximadamente R$ 7,8 bilhões). A pandemia posteriormente mergulhou o Cirque du Soleil em centenas de milhões de dólares em dívidas.

Afastando-se com a fortuna

Laliberté continua a querer ser conhecido como palhaço — Foto: BBC News fonte Laliberté continua a querer ser conhecido como palhaço — Foto: BBC News fonte

A vida pessoal de Laliberté foi tão colorida quanto os seus espetáculos. Ele teve cinco filhos com duas parceiras e namorou a modelo Naomi Campbell. Ele ficou conhecido por fazer festas extravagantes — especialmente durante o Grande Prêmio de Montreal — em que acrobatas se misturam a celebridades. Um livro que alegava excessos resultou em disputa judicial e posterior pedido de desculpas do autor.

Ele também é um jogador entusiasta, embora não o melhor do mundo, aparentemente. Entre 2006 e 2009, Laliberté teria perdido cerca de US$ 30 milhões (cerca de R$ 156 milhões) em jogos de pôquer online, mas também venceu torneios importantes.

Em 2009, ele se tornou o primeiro turista espacial do Canadá, ao passar 12 dias na Estação Espacial Internacional usando nariz de palhaço e conversando com o cantor Bono, por link via satélite, durante um show da banda U2.

Guy Laliberté foi o primeiro turista espacial do Canadá em 2009 — Foto: BBC News fonte Guy Laliberté foi o primeiro turista espacial do Canadá em 2009 — Foto: BBC News fonte

Ele descreveu a experiência como uma "viagem de negócios" destinada a chamar atenção para a escassez de água por meio de sua organização beneficente, a One Drop Foundation, embora posteriormente a corte tributária canadense tenha decidido que a viagem não poderia ser abatida da tributação.

Hoje, Laliberté divide o tempo entre residências em Montreal, Ibiza e Havaí, além de uma ilha privada na Polinésia Francesa que pode ser alugada por € 1 milhão por semana (cerca de R$ 5,5 milhões).

Em 2019, ele foi detido por cultivar cannabis na ilha, mas acabou liberado sem acusações após afirmar que era para seu uso pessoal.

Laliberté é conhecido como um bilionário que decidiu se afastar dos negócios para viver como desejava.

É um dos raros artistas bilionários — prova de que um artista de rua de cabelos compridos e espírito rebelde pode ocupar um lugar entre os mais ricos do mundo e ainda insistir em ser conhecido como palhaço.

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