A ruptura entre os sócios fundadores da Agrolend deixou de ser uma divergência interna e ganhou contornos maiores com áudios que revelam decisões estratégicas questionáveis em um momento em que a fintech especializada em crédito para o agronegócio consolidava rodadas de captação e ampliava sua base de investidores.
O NeoFeed teve acesso aos processos que tramitam no Tribunal de Justiça de São Paulo que colocam Valéria Fontana Bonadio Bittencourt, a sócia-fundadora responsável pelas áreas de risco e compliance de um lado, e os irmãos Alan e André Glezer do outro. Os autos estavam em segredo de justiça, mas o desembargador Grava Brazil, relator do caso, determinou a retirada do sigilo.
Nos documentos, Valéria Bonadio afirma ter sido alvo de um processo de esvaziamento de funções, com retirada de atribuições e limitação de acesso a informações relevantes. Segundo os documentos, decisões estruturais teriam sido tomadas sem o cumprimento de regras de deliberação e sem o seu consentimento.
A empreendedora sustenta ainda que houve concentração de poder decisório e mudanças na condução estratégica da empresa que, em sua visão, representariam riscos à governança e à própria integridade operacional da Agrolend.
Do outro lado, os irmãos Glezer defendem que as medidas adotadas foram necessárias para preservar a empresa e sua estratégia de crescimento.
Um áudio gravado em 21 de fevereiro de 2025, em uma sala de reuniões em São Paulo, expõe investidores de venture capital e sugere fraude nos números da fintech.
"A gente maquiou todos os números do ano passado para sair no zero a zero. Essa empresa tem um valor real acima do capital que a gente levantou? Não. Pode ser que a gente vá construir isso”, disse André Glezer no áudio que está anexado ao processo.
Em seguida, complementa: “Dá para vender isso aqui para alguém, dá para fazer um IPO. Uma coisa é enganar o bobo do venture capital que veio aqui e comprou um sonho e botou dinheiro, tá? Outra coisa é vender isso aqui para o Itaú, fazer um IPO, que é uma pessoa muito mais inteligente. A gente fez quatro milagres aqui, de fazer quatro rodadas de captações. Pode ter uma quinta, pode ser que sim, pode ser que não”.
No cap table da Agrolend constam as presenças de fundos de venture capital globais, investidores estratégicos e instituições financeiras.
Entre eles, estão o Valor Capital Group, Continental Grain Company, SP Ventures, Provence Capital, Barn Invest, Lightrock, Creation Investments, Syngenta Group Ventures Vivo Ventures (braço de CVC da Vivo), L4 Ventures (ligada à B3) e Norinchukin Bank, além da Japan International Cooperation Agency (JICA).
Em 2024, a série C de R$ 300 milhões da Agrolend havia sido um dos maiores aportes já feitos em uma agtech brasileira, ficando atrás apenas da rodada da Solinftec, startup especializada em tecnologias para monitoramento de safra.
Reunião e estado da empresa
O trecho acima não é um pequeno extrato da conversa de uma guerra societária. O NeoFeed teve acesso ao áudio integral da reunião, com quase uma hora e nove minutos.
O encontro de 21 de fevereiro começou com uma pauta administrativa: os irmãos Glezer comunicariam a Bonadio sua decisão de criar uma nova área jurídica de negócios, retirando de sua estrutura a equipe que ela havia construído.
Segundo o documento, a sócia, que havia perdido o pai dias antes e retornado ao trabalho no terceiro dia de luto, foi pega de surpresa (a pessoa para o novo cargo já estava escolhida).
No meio dessa conversa, que estava direcionada a encontrar um valor pelas ações da sócia-fundadora no negócio, André tentou contextualizar o estado real da empresa e justificar a necessidade de mudanças. Ele revelou que os resultados financeiros apresentados ao mercado em 2024 não correspondiam à realidade.
“Qual é o valor real que a gente construiu aqui nesses quatro anos? Tirando levantar dinheiro e botar no caixa é zero. A empresa não deu lucro. Uma empresa só existe cujo único objetivo é dar lucro acima do custo de capital. A gente nunca fez isso. A gente não tá nem perto disso”, afirmou ele, no áudio.
Na análise de André, o que havia sido construído nos quatro anos de existência da Agrolend era, em termos de geração de valor econômico, "muito perto de zero". E que as rodadas de captação haviam sido possíveis porque investidores de venture capital "compraram um sonho".
Na sequência, conforme a transcrição, ao falar sobre a necessidade de mudanças agressivas no modelo de negócio, André ainda acrescentou que seria "obviamente pisando em zonas cinzentas."
“Para dar lucro não é trabalhando como a gente trabalhou até hoje, é trabalhando como em outras empresas, 24 horas por dia, se matando para fazer dar resultado. É, que é o que a gente vai começar a fazer agora, né?!”, disse ele.
“Pressionando todo mundo para c*****, indo para cima. Obviamente pisando em zonas cinzentas, né?! Se não fizer isso, se não pisar em zona cinzenta, não tomar risco, não for agressivo, e vier tocando como a gente toca hoje aqui, com todo mundo de boa, estamos tranquilos, fazendo nosso negocinho, sem dar lucro nenhum, não vai dar”, completou André.
Valéria Bonadio era diretora de compliance, risco e controles internos da Agrolend, um cargo regulado pelo Banco Central e suas atribuições incluíam "evitar, detectar e tratar quaisquer desvios ou inconformidades" na operação da instituição financeira.
Para criar a Agrolend Holding em 24 de dezembro de 2020, ela foi a responsável pela estruturação jurídica e de regulação no BC, como a licença de Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento (SCFI), além da constituição da sociedade na Jucesp. Por definição estatutária, a responsabilidade de investigação das irregularidades era, justamente, de Valéria Bonadio.
De acordo com os documentos, após essa reunião, teve início um processo de exclusão da sócia da Agrolend. Em 28 de fevereiro, os irmãos Glezer bloquearam sem aviso o acesso dela ao e-mail institucional.
Nos dias seguintes, os acessos aos sistemas internos foram cortados. E, em 7 de março, uma notificação extrajudicial informou sua remoção de todos os cargos nas sociedades do Grupo Agrolend, inclusive antes de que os atos societários fossem formalizados, segundo registros de horário dos documentos anexados ao processo.
Apetite pelo agro
Fundada com a proposta de oferecer crédito estruturado ao agronegócio por meio de tecnologia e modelagem proprietária de risco, a Agrolend ganhou espaço rapidamente em um setor que combina alta demanda por financiamento e apetite de investidores por exposição ao agro.
Desde 2022, a empresa realizou quatro rodadas de captação. Na série A, levantou cerca de R$ 120 milhões com investidores como Valor Capital Group, Continental Grain Company, SP Ventures, Provence Capital e Barn Invest. Na sequência, a série B somou aproximadamente R$ 145 milhões, liderada pela Lightrock, com participação de investidores que já estavam no cap table.
Em 2024, a companhia anunciou uma Série C de aproximadamente US$ 53 milhões - cerca de R$ 300 milhões à época -, liderada por Creation Investments e Syngenta Group Ventures. A rodada contou ainda com a participação de Vivo Ventures, L4 Ventures e Norinchukin Bank, banco japonês especializado em agronegócio, além de investidores que já haviam aportado anteriormente, como Valor Capital, Lightrock, SP Ventures e Yara Growth Ventures.
Para complementar, em 2025, houve ainda uma extensão da Série C com novo aporte, incluindo recursos da agência japonesa JICA.
Esse caso Agrolend extrapola a briga societária entre ex-sócios. Caso as afirmações registradas no áudio forem confirmadas em juízo, elas podem indicar que fundos de venture capital teriam tomado decisões de investimento com base em informações financeiras que não representavam a realidade operacional da empresa.
Houve, pelo menos, duas tentativas sem sucesso de acordo em uma corte de arbitragem. O processo segue em aberto e aguarda julgamento pela 2ª Câmara Reservada de Direito Empresarial do TJSP, sob relatoria do desembargador Grava Brazil.
Procurados pelo NeoFeed, a Agrolend, os irmãos Alan e André Glezer e Valéria Bonadio mandaram os seguintes posicionamentos para a reportagem.
A banca Modesto Carvalhosa, Kuyven e Ronco Advogados, que representam os sócios Alan e André Glezer, escreveu que a “Agrolend informa que a controvérsia mencionada se refere a uma demanda proposta por uma ex-administradora há mais de um ano, já apreciada pelo Poder Judiciário, com decisões em primeira e segunda instância que reconheceram ser essa demanda absolutamente infundada e confirmaram a regularidade dos atos societários praticados pela companhia”.
“As decisões relacionadas à reorganização de funções foram tomadas à época em conformidade com os instrumentos societários vigentes e com as instâncias formais de governança da empresa”.
“A companhia reafirma que sempre atuou em conformidade com as normas contábeis aplicáveis e com total transparência junto a investidores e parceiros, como restou atestado na ação judicial. As informações financeiras da Agrolend são públicas, auditadas e encontram-se disponíveis no site da companhia".
O escritório Mattos Filho respondeu em nome de Valéria Fontana Bonadio Bittencourt: “sobre a disputa societária envolvendo a Agrolend, informamos que a posição da Sra. Valéria Bonadio está devidamente apresentada em suas manifestações processuais, e ela confia em que o Poder Judiciário restabelecerá a verdade dos fatos e a justiça no caso”.
“Diante da sensibilidade do tema e considerando sua condição de fundadora e acionista da companhia - com legítimo interesse na solidez e continuidade do Grupo Agrolend -, a Sra. Valéria reserva-se ao direito de não se pronunciar publicamente além do que já consta nos autos.”
