Controladora de companhias como Raízen, Rumo, Compass e Moove, a Cosan divulgou seus resultados do quarto trimestre e do ano de 2025 na noite da segunda-feira, 9 de março. Mas os indicadores do balanço acabaram não sendo os grandes protagonistas dessa agenda.
Na manhã de terça-feira, 10 de março, boa parte dos pouco mais de quarenta minutos da call da holding com analistas foi dedicada a uma discussão: as conversas, desdobramentos e especulações sobre a estratégia de desinvestimentos da holding de Rubens Ometto.
Um dos principais temas foi as negociações - e impasses - entre Cosan e Shell em busca de uma saída para a capitalização da Raízen. E cujo último capítulo, na semana passada, envolveu a proposta de um aporte de R$ 3,5 bilhões da companhia americana, que não seria seguido pelo grupo brasileiro.
“Nesse momento, nosso envolvimento não é direto, em virtude da nossa não participação nessa capitalização”, disse Marcelo Martins, CEO da Cosan. “Mas, como acionistas e conselheiros, temos acompanhado essa evolução e acreditamos que devemos ter novos desdobramentos desse plano de encontrar uma saída adequada para a companhia.”
O CEO destacou que, em 2025, justamente com a preocupação de uma eventual “contaminação” da Raízen, o foco foi equacionar a estrutura de capital da Cosan, o que começou a ser endereçado com a capitalização de R$ 10,3 bilhões liderada pelo BTG Pactual e a Perfin, em setembro.
Ele também observou que, na época dessa injeção de recursos, a holding deixou claro que havia uma limitação nos eventuais aportes que seriam feitos na Raízen, apesar da disposição de seguir nessa direção. O que, por sua vez, também trouxe restrições nas conversas com a Shell.
“Nós gastamos os últimos seis meses nessa discussão de uma forma bem engajada. Do meu tempo, 70%, 80%, pelo menos, foram dedicados a isso”, afirmou. “E, nos últimos dois meses, não conseguimos chegar a um acordo de participação efetiva da Cosan.”
À parte dos progressos nas tratativas com credores, ele frisou que é preciso encontrar uma saída definitiva para a Raízen. E que isso deveria envolver uma discussão sobre a separação da operação em duas companhias – uma de açúcar e etanol e outra de ativos de distribuição (postos de combustíveis).
“São negócios bastante distintos, que têm uma geração de caixa também distinta e que exigem uma estrutura de capital também distinta”, disse Martins. “Isso vai ser absolutamente fundamental e determinante para que tenhamos uma empresa sustentável.”
Em um plano mais amplo, além das questões específicas da Raízen, o executivo destacou que o objetivo é zerar, em algum momento, a dívida da Cosan. E que, nessa direção, as vendas de fatias de todos os ativos do portfólio, sem exceção, estão sendo avaliadas.
“A holding, da forma como existia no passado, não tem mais razão de continuar”, afirmou. “Mas isso vai depender das oportunidades e dos valores que estiverem na mesa. Hoje, nenhum acionista da companhia nos pressiona a fazer um deal a qualquer preço.”
Nesse cenário, Martins ressaltou que, no momento, não há qualquer conversa estruturada para a venda de participações em nenhum ativo da holding. E rechaçou os rumores a respeito de um acordo para se desfazer de uma fatia na Rumo, que ganharam força nesta semana.
“Isso é uma especulação de potenciais interessados querendo gerar um impacto de preço para aproveitar dessa situação e, eventualmente, fazer uma compra que não nos interessa”, disse. “Não temos, nesse momento, absolutamente nenhum engajamento para fazer essa operação que foi veiculada no mercado.”
Em contrapartida, ele observou que o plano de fazer uma oferta pública secundária de ações da Compass dialoga justamente com essa tese de simplificação e desalavancagem da holding. E disse que os detalhes desse movimento serão anunciados no momento oportuno.
Balanço
A Cosan encerrou o quarto trimestre com um prejuízo líquido de R$ 5,8 bilhões, um recuo de 38% em relação à perda registrada em igual período de 2024. No consolidado de 2025, a perda foi de R$ 9,7 bilhões, alta anual de 3%.
Segundo o grupo, o desempenho trimestral foi impactado por efeitos pontuais e sem efeito caixa do impairment de determinados ativos da Raízen, reconhecidos em função da aplicação de procedimentos contábeis decorrentes da incerteza significativa quanto à sua continuidade operacional, em função do desequilíbrio da sua estrutura de capital.
Na apresentação do balanço, a companhia também ressaltou que o prejuízo líquido anual é majoritariamente explicado pelo prejuízo reportado na Raízen. E que reflete ainda o reconhecimento de impairment das ações da Vale, ocorrido em 2024.
Em outros indicadores, a receita operacional líquida teve queda de 18% no trimestre, para R$ 9,6 bilhões. No acumulado de 2025, a linha registrou um recuo de 8%, para R$ 40,4 bilhões.
Entre outubro e dezembro, o Ebitda ficou negativo em R$ 3,8 bilhões, o que representou um salto de 128% sobre o Ebitda negativo de R$ 1,67 bilhão reportado no mesmo intervalo de 2024.
A companhia fechou o ano com uma dívida líquida expandida de R$ 9,7 bilhões, uma retração de 58% na comparação com 2024. A alavancagem pro forma expandida da operação, por sua vez, foi de 3,3 vezes, contra 2,9 vezes, um ano antes.
O grupo observou que a redução da dívida líquida foi puxada, principalmente, pela entrada de recursos em novembro, o que incluiu uma capitalização de R$ 10,3 bilhões, com a participação do BTG Pactual e da Perfin, além da venda de ações da Rumo e o impacto positivo da variação cambial nos bonds.
As ações da Cosan registravam alta de 6,62% por volta das 12h20 na B3, avaliando a empresa em R$ 23,9 bilhões. No ano, os papéis acumulam uma valorização de 15%.


