inteligência artificial — Foto: Pexels
O Mobile World Congress 2026, que aconteceu neste mês em Barcelona, na Espanha, deixou uma mensagem clara: a disputa tecnológica do momento não está apenas em novos dispositivos ou em redes mais rápidas, mas na capacidade das empresas de governar a inteligência artificial.
Com mais de 100 mil participantes, o evento mostrou um setor de telecomunicações em transição acelerada. O modelo baseado em vender chips e gigabytes já não sustenta crescimento. Dados viraram commodity; o mercado, maduro demais. A pergunta que ecoou pelos corredores do evento foi simples e direta: qual será a nova fonte de receita?
Três movimentos indicam o caminho.
O primeiro é a economia de APIs. Operadoras começam a abrir suas capacidades de rede para outros setores. Um banco pode usar uma API de localização para evitar fraudes; um hospital, para rastrear equipamentos; um varejista, para autenticar transações. A lógica muda: a conectividade deixa de ser o produto final e passa a compor um ecossistema integrado. A receita nasce na interoperabilidade.
O segundo movimento é a transformação das operadoras em empresas de tecnologia. O mercado de soluções corporativas cresce mais rápido que o consumo individual. Redes privadas, automação, IA aplicada à logística, segurança cibernética, monitoramento inteligente — é nesse campo que estão as oportunidades. Não se trata mais de vender dados, mas de resolver problemas de negócio.
O terceiro movimento é a busca por eficiência radical. Com receita limitada, cortar custos virou prioridade global. Casos apresentados no MWC mostram redes autônomas que se autoajustam, sistemas que preveem falhas e atendimento preditivo. A IA, aqui, é motor de produtividade.
Mas, apesar de todo esse avanço, foi outro tema que dominou o evento: como garantir que sistemas autônomos tomem decisões corretas? E, sobretudo, quem responde quando não tomam?
A discussão sobre governança — muitas vezes vista como secundária — tornou-se central. Com razão. À medida que agentes autônomos deixam de apenas analisar dados e passam a atuar diretamente, os riscos aumentam. Uma rede hospitalar administrada por IA não pode falhar. Uma API de localização não pode ser usada de forma discriminatória. A tecnologia amadureceu; a capacidade de governá‑la, não.
Daí emergem três exigências.
A primeira é a criação de estruturas robustas de governança. Empresas precisam definir limites de atuação, responsabilidades claras e mecanismos de supervisão. Sem isso, decisões automatizadas podem carregar vieses ou gerar impactos não previstos. Comitês de ética e liderança dedicados à IA deixam de ser recomendação e passam a ser condição básica.
A segunda é a adoção de segurança e transparência desde a origem. Sistemas opacos — as famosas “caixas‑pretas” — já não atendem processos críticos. É preciso garantir rastreabilidade e explicabilidade. Tecnologias como blockchain podem registrar de forma imutável decisões e ações, ampliando confiança.
A terceira é a integração da IA à estratégia do negócio. IA não pode ser tratada como um projeto isolado ou como responsabilidade exclusiva da área de tecnologia. Ela impacta o modelo de negócios, cultura, governança corporativa e visão de futuro. Decisões sobre onde e como aplicar IA precisam ser tomadas por executivos preparados e informados.
O MWC 2026 mostrou que a revolução da inteligência artificial não será vencida por quem tiver o algoritmo mais sofisticado. Será vencida por quem souber controlá‑lo, direcioná‑lo e responsabilizá‑lo. A confiança — e não apenas a inovação — será o elemento decisivo.
Para o Brasil, isso abre uma oportunidade rara. Nosso mercado, historicamente mais ágil e adaptável, tem condições de adotar rapidamente tecnologias avançadas, desde que com governança desde o início. Empresas que estruturarem essa base agora terão vantagem competitiva não só local, mas global.
A tecnologia já está pronta. A governança, ainda não. É esse o desafio que o MWC 2026 deixa para os líderes que o acompanharam — e o momento de enfrentá‑lo é agora.
* Leonardo Donato e José Ronaldo Rocha são sócios de consultoria para Tecnologia, Mídia & Entretenimento e Telecomunicações (TMT) da EY

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