Correspondências diplomáticas obtidas via LAI (Lei de Acesso à Informação) pelo Poder360 mostram que a Santa Sé via o Brasil como o mediador natural entre Estados Unidos e Venezuela, após a escalada de tensões militares no Caribe. O Vaticano esperava que o Itamaraty atuasse para evitar um confronto armado direto entre os 2 países.
A avaliação consta de telegrama da Embaixada do Brasil junto ao Vaticano, datado de 7 de novembro de 2025, dois meses antes da operação norte-americana que resultou na captura do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua mulher, Cília Flores.
O texto registra a percepção da diplomacia da Santa Sé de que o Brasil reunia as condições políticas e regionais para exercer esse papel. Segundo o documento, essa expectativa se baseava na “credibilidade regional” do país e em uma atitude tradicionalmente orientada ao diálogo, o que o colocaria em posição singular para abrir canais entre Washington e Caracas em um momento de agravamento da crise.
A expectativa externa coincidiu com um diagnóstico cada vez mais alarmado dentro do próprio Itamaraty. Documentos classificados como secretos mostram que a diplomacia brasileira reconhecia internamente o risco de uma escalada militar e passou a tratar a hipótese de confronto como plausível.
Um TCI (Termo de Classificação de Informação) da Embaixada em Caracas cita como tema central as “tensões no Caribe” e o “risco de conflito armado”, com análises sobre possíveis cenários de enfrentamento entre os 2 países.
Os telegramas indicam que essa preocupação não era abstrata. O Brasil monitorava de perto o deslocamento de forças militares norte-americanas no Caribe, incursões aéreas no espaço venezuelano e a reação de Caracas, incluindo o acionamento de caças para interceptação.
Alertas sobre o agravamento da tensão no espaço aéreo foram retransmitidos a postos considerados estratégicos, como Washington, Bogotá e a missão brasileira na ONU (Organizações das Nações Unidas).
“Esse movimento está em curso há anos, mas se torna particularmente urgente no atual cenário de graves tensões com os EUA, no qual uma confrontação militar direta é considerada plausível”, diz o telegrama de 17 de outubro de 2025, assinado pela embaixadora Glivânia Maria de Oliveira.
Além do risco bilateral, a diplomacia brasileira avaliava o impacto regional de um eventual conflito. Os documentos mostram que o Itamaraty acompanhava a reação de países vizinhos, como a Colômbia, e de organismos multilaterais diante da possibilidade de uma ação militar direta. Também disparou com alertas sobre o risco de desestabilização da América Latina e do Caribe, região historicamente definida como “Zona de Paz”.
A tensão culminou em 3 de janeiro de 2026. Os Estados Unidos realizaram uma incursão em território venezuelano que resultou na captura do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua mulher, Cília Flores. O governo venezuelano classificou a operação como uma “agressão criminosa, ilegítima e ilegal” que deixou mais de uma centena de mortos.
O Brasil rotulou a operação como “grave” durante reunião extraordinária do Conselho Permanente da OEA (Organização dos Estados Americanos), com sede em Washington, nos Estados Unidos. O embaixador Benoni Belli disse que o episódio evoca “tempos considerados ultrapassados, mas que voltam a assolar a América Latina e o Caribe”.
O Ministério das Relações Exteriores brasileiro disse, porém, que “não há escalada de tensão entre o Brasil e os Estados Unidos”. Declarou que a posição adotada é “coerente com a tradição da política externa e com a Constituição“.


